Nasce a mãe de dois. Nasce o irmão mais velho.

Não é fácil se tornar irmão mais velho. Não é fácil se tornar mãe de dois. É uma transformação que acontece fisicamente assim que o bebê nasce. É lindo. É emocionante. É dolorido. Sim, dói. Dói nascer porque para nascer tem que morrer.

Morre o filho único. Morre a mãe de um. Nasce o irmão mais velho. Nasce a mãe de dois.
Hoje falo por mim e por Joaquim porque nós dois passamos juntos por essa experiência de vida-morte-vida. E posso dizer que passamos por ela numa bela sintonia, tão unidos que a partir do nascimento da Aurora parece que começamos a nos entender até pelo olhar. Porque meus braços ficaram mais ocupados do que antes, então começamos a nos olhar com mais atenção e profundidade.

 

eu, Joaquim e Aurora na barriga

eu, Joaquim e Aurora na barriga

 

No início desse ano, também início da minha gestação, Joaquim começou a frequentar a escola e estava bem animado, pensei “que maravilha pois quando o bebê nascer ele já estará indo na escola e poderei meu dedicar melhor ao bebê” pois não é assim que dizem que “tem que ser?”. Mas logo a escola deixou de acontecer e ele voltou pra casa e passamos a gestação de Aurora bem juntinhos. Sentia como se fosse o início da nossa despedida de mãe e filho únicos. Foram dias tão bons! Eu olhava pra ele e sentia tanto amor por esse nosso momento e conscientemente eu sabia que meu bebê na barriga sentia também esse amor.

Muito já ouvi falar de que quando vem um novo bebê é melhor o irmão mais velho ir se acostumando a ficar mais sozinho e tal mas o que vivenciamos foi o oposto: decidimos curtir cada momento mais juntinhos do que nunca! Viver o amor.

Joaquim conversava com a irmã no ventre com uma naturalidade que era como se ele conseguisse enxergar através da barriga. Ele participou de tudo, dos encontros do grupo de gestação ao parto em si. Lembro de quando eu estava em pleno trabalho de parto ele me perguntando “você está tendo contração mamãe?” e de quando a irmã nasceu ele falar pra ela “parece que eu já te conheço faz tempo”.

E assim nasceu o irmão mais velho. Tão animado com o bebê que acabara de chegar. Zeloso e alegre, demostrando admiração e generosidade pela irmã. Tanto ouço falar em ciúmes mas não foi isso que vi acontecer. Teve um dia em que ele chorou, chorou por um motivo bobo (um desenho que ele gosta de assistir e antes de dormir falou que estava com saudades do desenho e começou a chorar). Como conheco bem meu filho sei que o choro na verdade não tinha nada a ver com o desenho, e que as crianças muitas vezes usam algo bobo para representar algo importante, percebi ali que era uma forma que ele conseguiu para extravasar todo aquele sentimento que estava ali. Um sentimento de que “as coisas mudaram”, agora não sou só eu como filho. Aquele choro que veio por se tornar irmão mais velho, por toda a mudança que estava acontecendo. E ali choramos juntos, deitados e abraçados . Era um choro de despedida para nós dois.

E assim nasceu a mãe de dois. Nos primeiros dias de mãe de dois me vi querendo estar presente e inteira para os dois, numa mistura de sentimentos e sensações, algo meio inexplicável. Uma certa angústia. Mas não dava para ser duas, não dava para estar com os dois individualmente ao mesmo tempo. O bebê naquele momento (e até hoje) precisava muito de mim. Senti uma espécie de dor interna de querer estar mais com Joaquim, poder ajudá-lo no banho, colocá-lo pra dormir com tempo e atenção, de querer fazer tudo como era antes, mas não dava. As coisas tinham mudado. Porque muda. É fato. Ali senti que eu estava me despedindo da mãe de um filho só que eu era. Foi então que naquele dia choramos juntos abraçados na cama.

Eu já era mãe de dois.

Nossa que loucura tudo isso! Como é isso? Como se faz? Como será nossa rotina? Como é essa nova vida?

Pois é, para nascer tem que morrer.

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Roberta

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