Relato de Amamentação – Lara e Helena

Quando descobri que estava grávida, comecei a me preparar para a chegada da Helena. Começamos a ler, estudar e buscar informações sobre tudo que envolve o nascimento de um bebê. Gestação, parto, puerpério, amamentação, a vida do casal. Olhamos para nós, o que precisávamos melhorar para a chegada dela. Olhamos para tudo que a gestação trouxe à tona na nossa vida. Olhamos para tudo que poderíamos aprender nesse processo. Olhamos para os ciclos que precisávamos quebrar. Olhamos para o que precisávamos religar. Fomos sendo gerados com ela. Enquanto ela crescia dentro de mim, nós crescíamos aqui fora à espera dela. O parto, foi transformador. Não conseguiria explicar aqui. Não nesse momento. Ela nasceu e com ela, nascemos… pai e mãe.

Toda teoria que tínhamos seria colocada em prática. A começar, pela amamentação. Engano nosso. Já nos primeiros três dias as fissuras apareceram. Tive ajuda, suporte das parteiras que fizeram nosso parto. A pega estava certa. Minha pele era muito sensível. Fissuras, sangramento, pequenos pedacinhos do mamilo sumiam a cada mamada. Como eu conseguia dar o peito? Chorando. Com um pano na boca, segurando a mão do meu marido enquanto minha mãe incentivava e me acalmava. Gritei muitas vezes. A dor de amamentar com os seios feridos, corta a alma. E eu pensava: “me preparei tanto” “sempre sonhei em amamentar” “ela precisa, não posso desistir”… e assim fomos superando cada mamada.

Meus mamilos infeccionaram, havia pus. Precisava fazer ordenha manual e dar de colher para o bebê. Os bicos estavam com feridas. Não suportava a dor. Passei alguns dias assim. Enquanto ela dormia, eu ordenhava manualmente o leite. Levava às vezes 2h para conseguir 60ml para ela. Não dormia. Dava o leite e fazia ela dormir, para voltar a tirar leite manualmente. Chorava, pedindo a Deus que meu seio cicatrizasse e que o leite não secasse.

Ela chorava com saudade do peito. Nada saciava o choro dela. E eu chorava porque não conseguia dar o que ela estava querendo. Que sensação de impotência! Ela chorou de fome, eu não tinha conseguido tirar leite… Preparamos uma fórmula e demos a ela. Como eu sofri com aquilo! Eu não podia aceitar que estava fazendo aquilo. Parecia que estava dando veneno pra minha filha, e não comida!! (Quanta culpa!)

 

amamentacao lara

 

Depois de alguns dias, consegui amamentar novamente. Chorei de alegria! Estava resolvido! Mas não. A carência dos dias sem peito fez com que a Helena aumentasse a demanda e passou a mamar por 1:30h com intervalo de 1h entre as mamadas. Chegava a passar 2h no peito, sugando. Com essa demanda e os peitos ainda machucados, tudo voltou como antes. Dores, sangramento, fissuras… ainda não haviam sumido. Continuavam ali.

Entraram os tão temidos bicos de silicone. Mais uma vez, a sensação de impotência. “Porque preciso disso pra amamentar? As pessoas amamentam sorrindo nos comerciais… tem algo errado comigo…” Os bicos de silicone aliviaram um pouco as dores, me fizeram ir um pouco mais. Alguns dias depois, acordo me sentindo estranha. Pontadas no peito e febre súbita de 40 graus. Fui atendida no hospital. Sim, mastite. Nos dois seios. Tratamento? Anti inflamatório e antibiótico. Preciso repetir como me senti impotente? Eu só queria amamentar. Só! Minha filha precisa, eu quero.

Comecei a acalmar meu coração depois de ouvir: “Tudo que você pode fazer você está fazendo, amor. Não tem nada que você não tenha tentado. Você tem sido muito forte. Você só precisa aceitar que há coisas que estão fora do seu controle”. E eu comecei a entregar. Entreguei minhas angústias, medos, inseguranças, impotência… Aceitei que as pessoas são diferentes umas das outras. Há aquelas pessoas que não precisam passar por nada disso, mas há aquelas (como eu) que precisam.

Aprendi a não julgar. Não julgo alguém que desistiu. Eu pensei em desistir. Estou tomando antibiótico ainda e ainda sentindo muita dor. Não pretendo desistir, mas também não sei até onde vou. Há muita coisa que não controlo. Não julgo quem desistiu. Nossos limites são diferentes. O meu melhor é diferente do seu melhor. Não julgo se você fez o seu melhor e esse melhor incluiu dar fórmula porque seu filho chorava de fome, se você deu chupeta porque estava há dias sem conseguir dormir e o bebê só queria sugar (no direito dele, eu sei), se você (como eu) ainda precisa do bico de silicone.

Não se culpe! Se doe! De o seu melhor, com toda sinceridade e aceite… há coisas que você não pode controlar. E se você ver alguma mãe dando chupeta, fórmula ou amamentando com bico de silicone, não julgue! Não critique! Você não sabe o que essa mulher tem passado… ajude! Encoraje! Vamos abrindo caminho ao dar nosso melhor, um dia de cada vez! Lara (mãe recém-nascida) e Helena (filha recém-nascida) @laracssa

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Roberta

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